domingo, 16 de novembro de 2014

Educação para o futuro

Infraestrutura

Especial tecnologia

Educação para o futuro


Uso de tecnologias no ensino precisa vencer barreiras de infraestrutura, como número insuficiente de computadores nas escolas e baixa velocidade de internet; capacitação dos professores é outro desafio


Patrícia Pereira

O cenário parece positivo: praticamente todas as escolas brasileiras têm um computador e 92% delas estão conectadas à internet. Os problemas aparecem quando os dados são analisados com um olhar mais meticuloso: o número de computadores em cada escola ainda é insuficiente, eles costumam ser instalados em locais inadequados ao uso pedagógico e a conexão à internet tem baixa velocidade nas escolas públicas. Além disso, falta capacitação aos professores para usar as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) no ensino.

O panorama vem da pesquisa TIC Educação 2012, realizada pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação - CETIC.br, que entrevistou 1,5 mil professores de 856 escolas de todo o país (veja infográfico). E se a maioria das escolas possui computador, o número das que têm o equipamento disponível para a utilização dos alunos é bem menor. De acordo com dados do Censo Escolar 2012, 42,4% das escolas públicas urbanas e 78% das rurais não possuem laboratórios de informática.

Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br, explica que as políticas públicas que levaram tecnologia às escolas tiveram sucesso relativo. "Na percepção da direção, o que mais dificulta o uso pedagógico é o número de computadores insuficiente e a baixa velocidade da internet", diz. De acordo com a pesquisa, 27% das escolas que possuem conexão à internet têm velocidade inferior a 1 Megabit por segundo (Mb/s) e apenas 17% têm velocidade de conexão superior a 8 Mb/s - em um grupo que engloba escolas públicas e privadas. "Na escola pública, a velocidade média de conexão à internet é de 1 a 2 Mb/s", conta. Na zona rural, a dificuldade é ainda maior e só 13% das escolas públicas possuem acesso à internet, de qualquer tipo, de acordo com o Censo de 2012.

Outro problema é o uso do computador, ainda restrito ao laboratório de informática, quando deveria estar presente em sala de aula, local que concentra a rotina dos alunos na escola. "Apenas 4% das escolas públicas têm computadores e internet dentro de sala de aula", relata Barbosa.

Formação docenteMas o grande nó no uso das TICs no ensino parece ser a capacitação dos professores. Segundo a pesquisa, 28% dos professores dizem ter habilidade insuficiente ou muito insuficiente relacionada ao uso profissional de computadores e internet. "O grande desafio hoje é ter o professor treinado para fazer o uso das TICs. O número de professores que sabem usar essas tecnologias está aumentando, mas ainda é um uso instrumental, quando o necessário é aprender a utilizá-las pedagogicamente, apenas usar computador e internet a nova geração já sabe", diz Barbosa.

Nos cursos de pedagogia e licenciaturas o uso das novas tecnologias no ensino ainda é pouco abordado. Apenas 44% dos professores entrevistados no estudo do Cetic.br cursaram alguma disciplina sobre uso do computador e internet na graduação. Além das dificuldades técnicas, os professores argumentam ter pouco tempo e receio de conhecerem menos sobre as ferramentas que os alunos.

Para Lígia Leite, vice-presidente da Associação Brasileira de Tecnologia Edu­cacional (ABT) e autora do livro Com Giz e Laptop - da concepção à integração de políticas públicas de Informática, os professores precisam conhecer as tecnologias disponíveis e ter sólida formação pedagógica para saber unir o conteúdo, a técnica e a didática. "E essa formação deve ser continuada porque sempre surge uma tecnologia nova, um recurso novo. É preciso fazer cursos rápidos que os habilitem a usar certa ferramenta. Além disso, em meio ao processo também é preciso fazer uma avaliação crítica para saber se as ferramentas estão sendo boas e se vale a pena continuar a utilizá-las", diz Lígia.

A ausência do uso das TIC no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola também compromete o trabalho a ser feito pelo professor, afirma Patrícia Alejandra Behar, coordenadora do Núcleo de Tecnologia Digital Aplicada à Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e das Oficinas Tecnológicas do curso de especialização em Gestão Escolar da UFRGS. "Vejo que falta um projeto para inserção das tecnologias nas escolas, que explique como, para quê e por que usá-las. Os professores recebem tablets e não sabem o que fazer, acabam usando jogos e mais nada. É preciso integrar as TICs ao projeto pedagógico das escolas de forma positiva e desafiadora", diz.

Patrícia ressalta que muitos professores têm uma carga horária alta e não dispõem de tempo para realizar cursos. A solução, segundo ela, seria aproveitar horários em que os docentes estão na escola, mas fora de sala de aula, como os Horários de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) ou períodos de férias dos estudantes.

É essa a proposta do Crescer em rede - um guia para promover a formação continuada de professores para a adoção de tecnologias digitais no contexto educacional: orientar professores e coordenadores pedagógicos a organizarem um grupo de estudos na escola sobre o tema. O material, organizado por Luciana Allan, diretora do Instituto Crescer, aborda questões como pesquisas na internet, construção de blogs, uso de recursos audiovisuais, objetos digitais de aprendizagem e trabalho colaborativo. A segurança na internet, o perigo do ciberbullying e as oportunidades trazidas pelas redes sociais também são discutidos. Dividido em dez encontros, o guia mostra como planejar essa formação, registrar o resultado das reuniões e avaliar o trabalho desenvolvido. O livro pode ser consultado on-line ou baixado gratuitamente no site:http://institutocrescer.org.br/cresceremrede/.

Programas do MECPara levar as tecnologias digitais para as escolas públicas, o MEC criou vários projetos, como o Programa Nacional de Tecnologia Educacional (ProInfo), que leva computadores, recursos digitais e conteúdos educacionais às escolas, o projeto Um Computador por Aluno (UCA), que distribui netbooks para os estudantes e, mais recentemente, a distribuição de tablets para os professores do ensino médio. Para promover o acesso à internet há ainda o Programa Banda Larga nas Escolas (PBLE) e outras ações, como o Programa Nacional de Formação Continuada em Tecnologia Educacional (ProInfo Integrado), que orientam os educadores sobre o uso dessas tecnologias. Segundo os especialistas consultados, os projetos estão na direção certa, mas a qualidade e a quantidade de sua oferta ainda são insuficientes.

"O MEC abriu os olhos para a necessidade de as escolas estarem conectadas e de as tecnologias pedagógicas serem disseminadas na rede pública de ensino. A direção é esta, mas ainda faltam investimentos em infraestrutura e suporte técnico", diz Patrícia.

Para ela, o grande problema é a falta de manutenção. Se um computador estraga ou se ocorre um problema no servidor, não há quem se responsabilize e resolva a falha. Ela também lembra que a formação dos docentes para usar as tecnologias digitais ainda não é satisfatória, apesar de a tentativa existir. "Eles sabem o quanto é importante", diz.

Para Lígia, o ponto forte dos programas desenvolvidos pelo MEC é a produção de objetos de aprendizagem, que têm uma oferta grande nas diversas áreas e são acessíveis a todos os interessados. "É uma semente lançada, mas não o suficiente. O Brasil é grande e muito diverso."

O Banco de Objetos pode ser acessado em: http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/



Nenhum comentário:

Postar um comentário